Família de Preta Gil aponta contradição de padre em defesa na área cível e acordo criminal com o MPF
02/03/2026
(Foto: Reprodução) Padre denunciado por intolerância religiosa firma acordo com o MPF
A família de Preta Gil e Gilberto Gil aponta uma contradição na defesa do padre Danilo César, da paróquia de Areial, denunciado por intolerância religiosa por falas em uma missa transmitida ao vivo no ano passado. A divergência apontada são em dois processos, um na área cível, por danos morais, e outro na área criminal, onde o clérigo fechou acordo com o Ministério Público Federal (MPF) para não responder pela conduta.
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Segundo os advogados da família Gil, Layanne Piau e Fredie Didier, em contato com o g1, após firmar acordo com o Ministério Público Federal (MPF), homologado pela Justiça Federal, o padre Danilo César apresentou versão diferente na área cível, afirmando que ele apenas expressava a própria fé ao associar a morte da cantora à prática de religiões de matriz africana.
No Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) que o padre firmou com o MPF, foi feita a assinatura de um termo de confissão de conduta ilícita e era previsto que ele prestaria uma série ações, como participar de um ato-religioso de conscientização.
No entendimento dos advogados da família Gil, essa diferença pode significar uma quebra de decisão judicial, já que o acordo foi homologado por um juiz. No entendimento deles, embora se trate de processos em esferas distintas, cível e criminal, um pode ter relação com o outro, na medida em que surgiram do mesmo fato. Fredie Didier não informou se irá recorrer do acordo.
Ao g1, a defesa do padre, o advogado Rodrigo Rabello, disse que os processos não têm relação e que o acordo com o MPF não previu "assumir qualquer prática de crime".
"No ANPP do procedimento criminal, em momento algum o padre assumiu qualquer prática de crime, tampouco de dolo. Ele somente assumiu o que era público e notório: que proferiu aquelas falas que foram gravadas. O texto do ANPP é claro nesse sentido. Ademais, os objetos centrais do procedimento criminal e do processo civil são diferentes. De sorte que, em nosso entendimento, no processo civil, não há como se estabelecer relação entre ambos os procedimentos", disse.
Como previsto no acordo, o ato religioso foi realizado em 6 de fevereiro e o padre Danilo César não quis se pronunciar durante o evento. Naquela oportunidade, o próprio Gilberto Gil e a madrasta de Preta Gil participaram de forma remota da cerimônia.
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Danilo César, padre denunciado por intolerância religiosa em fala sobre Preta Gil participou do ato
Diogo Pinheiro/TV Cabo Branco
Veja abaixo todos os pontos do acordo do padre com o MPF
Leitura e produção de resenhas manuscritas das obras A Justiça e a Mulher Negra (Lívia Santana) e Cultos Afro-Paraibanos (Valdir Lima), preferencialmente capítulo a capítulo, para garantir compreensão geral;
Produção de resenha manuscrita do documentário Obatalá, o Pai da Criação;
Cumprimento de 60 horas de cursos sobre intolerância religiosa, com certificados válidos, podendo somar diferentes cursos, inclusive na modalidade EAD com controle de presença;
Até o fim de junho, é obrigatório entregar as 3 resenhas manuscritas e no mínimo 20 horas certificadas de cursos;
Pagamento de R$ 4.863,00, em até 5 dias, via Pix para a Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes (AACADE);
Participação obrigatória em ato inter-religioso com presença de diferentes religiões e familiares de Gilberto Gil. Danilo deve comparecer e articular previamente sua participação com a Procuradora da República.
"Cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil?"
Associação denuncia padre por intolerância religiosa ao citar morte de Preta Gil, na PB
O caso ocorreu no dia 27 de julho do ano passado. Durante a homilia, o padre citou a morte da cantora Preta Gil, nos Estados Unidos, vítima de um câncer colorretal, associando a fé dela em religiões de matriz afro-indígenas a morte e sofrimento.
A missa foi transmitida ao vivo pelo Youtube da paróquia de São José, em Areial. O vídeo foi retirado do ar após a grande repercussão nas redes sociais.
“Eu peço saúde, mas não alcanço saúde, é porque Deus sabe o que faz, ele sabe o que é melhor para você, que a morte é melhor para você. Como é o nome do pai de Preta Gil? Gilberto Gil fez uma oração aos orixás, cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil? Já enterraram?", disse.
As declarações com cunho de intolerância religiosa também aconteceram em relação aos fiéis para os quais o padre estava presidindo a missa. Ele chegou a se referir a religiões de matriz afro-indígenas como "coisas ocultas" e que desejava "que o diabo levasse" quem procurar essa prática.
“E tem católico que pede essas coisas ocultas, eu só queria que o diabo viesse e levasse. No dia seguinte quando acordar lá, acordar com calor no inferno, você não sabe o que vai fazer. Tem gente que não vai aqui (Areial), mas vai em Puxinanã, em Pocinhos, mas eu fico sabendo. Não deixe essa vida não pra você ver o que acontece. A conta que a besta fera cobra é bem baratinha", disse
A fala foi considerada como preconceituosa pela Associação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema Mãe Anália Maria, da região de Areial. O presidente da instituição, Rafael Generiano, fez um boletim de ocorrência contra as falas do padre por intolerância religiosa à época.
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